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A adaptação dos quadrinhos de "Motoqueiro Fantasma", dirigido por Mark Steven Johnson (" Demolidor – O Homem Sem Medo") e estrelado por Nicolas Cage ("O Senhor das Armas"), estreará na próxima sexta-feira (16/02) nos Estados Unidos. Ao que tudo indica, a Sony Pictures parece estar receosa com a qualidade de seu novo investimento, já que pretende não exibir o seu filme previamente para os críticos.
Esta tem sido uma tendência de vanguarda da Sony, já que é costume a realização de uma avant-première para a crítica especializada. No ano passado, muitos filmes do estúdio (a maioria de baixo orçamento) não recebeu o olhar prévio da crítica, que detém o poder de diminuir e muito a bilheteria de um filme.
Na história de "Motoqueiro Fantasma", o dublê Johnny Blaze (Cage) é um audacioso motociclista que faz um pacto com as forças do mal e vende sua alma para salvar seu pai. Anos mais tarde, é procurado por Mefistófeles que oferece sua liberdade se ele aceitar uma missão: encarar Coração Negro, o filho rebelde do senhor do inferno que está solto na Terra. Para tanto, Johnny Blaze será transformado no Espírito da Vingança, uma criatura com o crânio em chamas, armada com uma corrente e montada em uma motocicleta com rodas de fogo.
O filme chegará aos cinemas brasileiros no dia 2 de março.






11 de setembro de 2001 é uma data de significa muito não somente para os norte-americanos, mas para o mundo todo. Quando terroristas conseguiram derrubar um dos símbolos da hegemonia norte-americana, muitos morreram, muitos lamentaram, outros comemoraram. E todos ainda se lembram. Cinco anos após os ataques terroristas que derrubaram o World Trade Center, em Nova York, o cinema começa a encarar de frente essa história, exatamente como faz o digno drama Vôo United 93.
Muito se falou sobre o que aconteceu em torno das "Torres Gemas", atingidas por dois aviões seqüestrados por terroristas naquela fatídica manhã. Este filme, no entanto, joga as luzes sobre o drama que aconteceu em volta, nas torres de controle que identificaram os quatro aviões seqüestrados, nas companhias aéreas e até mesmo entre os militares. E, principalmente, dentro do vôo 93 da United Airlines, que estava a caminho de São Francisco até ser seqüestrado por três terroristas, cujo plano era jogar o avião comercial na Casa Branca, lar do presidente norte-americano e símbolo máximo do seu governo. Dos quatro aviões controlados por terroristas naquela manhã, somente este não conseguiu atingir seus alvos. Isso porque, durante o processo, os passageiros do avião fizeram um motim e tentaram tomar o controle da aeronave. É notório que a manobra não deu muito certo e o avião caiu na Pensilvânia, em acidente sem sobreviventes. E é essa a história que Vôo United 93.
O filme tinha tudo para ser mais um filme bobo que exalta o heroísmo de norte-americanos, cheio de situações-limite e finais felizes. Mas este não é o caso e a direção do inglês Paul Greengrass (A Supremacia Bourne) é chave para que a produção seja tão bem-sucedida. Sua câmera acompanha de perto o que acontece, o que ajuda a criar a tensão necessária. Por mais que já saibamos o que acontece, o filme envolve o espectador, que se pega torcendo por um final feliz, por mais que não há espaço para isso em Vôo United 93, nem para heróis ou vilões. O espectador não se apega a nenhum personagem do elenco formado por atores desconhecidos. Inclusive, eles são tão mal-informados em relação aos objetivos das ações, os alvos e a identidade dos terroristas quanto éramos na época. Só se sabe que os criminosos que tomam o avião são de origem muçulmana e suas ações são calcadas na fé. Fugindo do dramalhão fácil e do maniqueísmo, Greengrass não pretende apontar culpados, vítimas nem soluções e esse é um dos grandes méritos de Vôo United 93. Extremamente realista, o filme ainda usou controladores de vôo profissionais em algumas cenas, tanto os que trabalham em vôos comerciais quanto os militares. Filmado com câmeras portáteis, a direção aproxima-se da documental, o que imprime mais realismo ainda ao filme. Além disso, os familiares dos 40 passageiros e tripulantes mortos no vôo 93 deram consultoria ao filme para que o diretor e roteirista pudesse traçar retratos precisos sobre eles.
O que interessa a Greengrass, que também assina o roteiro, não é criar empatia junto ao espectador. Trata-se de um drama humano, mas seus personagens não são movidos pelo heroísmo, mas pela sobrevivência. O filme também enfatiza a falta de preparação tanto vinda dos operadores de vôo quanto dos militares, que simplesmente não sabem o que fazer ao perceber que seu país está sob ataque. Resta a eles, como ao resto do mundo, observar a fumaça pela TV.
Em tempo: US$ 1,5 milhão da renda de Vôo United 93 em seu fim de semana de abertura nos EUA foram doados ao memorial construído na Pensilvânia em homenagem aos mortos no acidente.

O cinema produzido por Pedro Almodóvar é um dos mais apreciados do mundo. O termo "filme almodovariano" é quase um gênero cinematográfico, referente às produções que bebem na fonte criativa do diretor. De estilo bem-definido, seus filmes têm características marcantes que foram um pouco deixadas de lado em seu filme anterior, Má Educação (2004), e voltam em Volver, para delírio dos muitos admiradores do cineasta. Almodóvar sabe como poucos valorizar a mulher, colocando-a num altar de adoração, passando longe do feminismo político, no entanto.
As cinco mulheres desta produção são sua alma: Raimunda (Penelope Cruz), Irene (Carmen Maura), Sole (Lola Dueñas), Paula (Yohana Cobo) e Augustina (Blanca Portillo). Irene é a matriarca desta família estritamente feminina. Mãe de Raimunda e Sole, morreu num trágico incêndio que também tirou a vida do marido. As irmãs, sempre unidas, vivem em Madri, mas sempre voltam à pequena cidade de La Mancha, onde o vento não pára de soprar. É lá que mora a Tia Paula (Chus Lampreave). Idosa, já não consegue se virar muito bem sozinha em sua casa, mas recebe a ajuda diária de Augustina, sua vizinha e amiga de longa data da família. Baseado nesses personagens, Volver traça fortes histórias paralelas que dão um toque de tragicômico ao filme.
Penelope Cruz está no auge de sua beleza e maturidade como atriz, mostrando que voltar a trabalhar com Pedro Almodóvar depois de Tudo Sobre Minha Mãe (1999) foi uma das melhores coisas que fez pela própria carreira. Ela e as outras incríveis atrizes de Volver conduzem o espectador neste mundo extremamente "almodovariano", cheio de cores vivas, toques de sobrenatural, mulheres fortes, crimes, tramas paralelas e um elemento que conduz as histórias: a morte. Almodóvar seduz o espectador com este roteiro repleto de humor (muitas vezes negro) e mulheres carismáticas. E emociona, claro, ao abordar essa tão única relação entre mães e filhas que somente as mulheres e Almodóvar entendem. Porque ele entende e respeita a alma feminina, tem devoção por suas personagens e, por isso, sabe fazer tão bem o que faz.
Volver é Almodóvar em sua melhor forma. Do tipo de filme que o espectador não precisa fazer muito além de sentar frente à tela e se deliciar com o que o cineasta tem a oferecer.

Não é tão ruim como parte da imprensa diz. Mas também não é tão bom quanto poderia ter ficado. Após anos e anos passando pelas mãos de diversos diretores, roteiristas e produtores, foi criada uma expectativa muito grande a respeito da tão esperada volta do Superman (na minha época de gibis chamava Super-Homem), gerando para os fãs um nível de ansiedade não correspondido. Mas o fato é que Superman - O Retorno pode ser visto como uma boa diversão. Basta não esperar demais do filme.
Logo na abertura, o público é brindado com uma bela homenagem ao filme de 1978: foram mantidos o mesmo tema musical e a mesma tipologia dos créditos iniciais da aventura estrelada por Christopher Reeve. Para os saudosistas, é arrepio garantido. A história começa mostrando a explosão de Krypton e incontáveis fragmentos do planeta se espalhando pelas galáxias. Um deles cai na Terra, mas... Surpresa! Não se trata de uma pequena nave carregando o bebê Kal-El, como poderia se supor, mas sim do Super-Homem já crescido, retornando à fazenda de sua mãe terrestre. Explica-se: Superman - O Retorno parte da premissa que o Homem de Aço teria abandonado nosso planeta, alguns anos atrás, em busca de suas origens, e estaria regressando agora. Ou seja, o subtítulo "O Retorno" refere-se não somente ao fato de estarmos completando quase 10 anos sem nenhum longa-metragem do personagem nos cinemas, como também à própria trama em si.
No período em que esteve fora, Superman abandonou sua grande paixão, Lois Lane (Kate Bosworth, de A Onda dos Sonhos), e a mítica Fortaleza da Solidão, seu lugar secreto de reflexões e aprendizado. Duplo prejuízo. Lois agora tem um filho e está vivendo com o sobrinho do dono do jornal Planeta Diário, enquanto o megavilão Lex Luthor (Kevin Spacey, de Beleza Americana) invadiu a Fortaleza e decifrou seus segredos. É hora de recuperar o tempo perdido.
O novato Brandon Routh no papel título não faz feio e o elenco todo funciona bem. Mesmo porque, na clara intenção do diretor Bryan Singer (o mesmo dos dois primeiros X-Men) em reverenciar o filme dos anos 70, tanto Brandon como Kevin Spacey copiam algumas expressões corporais e faciais de Christopher Reeve e Gene Hackman, respectivamente o Superman e o Lex Luthor de 1978. Como não poderia deixar de ser, há pequenas delícias para os fãs mais atentos. Por exemplo: a foto que um garoto anônimo tira de Superman carregando um automóvel reproduz a exata posição do corpo do herói na capa de seu primeiro gibi, em 1938. E, ao examinarem a pífia fotografia tirada por Jimmy Olsen, o editor Perry White e Lois Lane repetem a clássica abertura do seriado de 1952: "É um pássaro, um avião? Não, é o Superman!".
Superman - O Retorno é irregular. Por vezes, estica demais determinadas situações que poderiam ser mais eficientes na tela se "enxugadas" em alguns minutos. O acidente com o ônibus espacial logo no começo do filme, por exemplo, se enrola num excesso de detalhes que acabam diluindo a intensidade dramática que a cena poderia ter. Assim como o conceito do tal Continente que Lex Luthor quer criar em cima dos EUA soa bastante confuso. Idas e vindas no salvamento final também prejudicam o ritmo. Por outro lado - por incrível que pareça -, o filme rende muito mais quando explora o drama e o romance que a ação e a aventura. O relacionamento entre Clark Kent, Lois Lane e Superman tem consistência romântica e momentos visuais bens construídos, como o vôo noturno do casal apaixonado. Sem querer estragar surpresas, o roteiro também ganha em dramaticidade ao criar situações humanas envolvendo diferentes níveis de paternidades.
Sim, este novo Superman é uma boa história de amor. Pode não ser o filme dos sonhos da maioria dos fãs, mas é um bom recomeço para uma nova e duradoura franquia.

POSEIDON
Por Celso Sabadin
criticas@cineclick.com.br
Existem, basicamente, dois motivos que podem justificar uma refilmagem: dar uma nova visão, uma nova luz, a um tema já mostrado anteriormente pelo cinema, ou apresentar um assunto antigo a um público novo. Assim como o recente A Profecia, esta refilmagem de O Destino de Poseidon também só pode ser justificada pelo segundo motivo citado. Para as gerações que já curtiram o original de 1972, este remake nada acrescenta. Quem não viu o antigo pode experimentar o novo, mas com uma ressalva: o filme traz todos os cacoetes da onda "cinema-catástrofe" dos anos 70.
A estrutura dramática é a mesma de sempre: primeiro, uma breve apresentação dos personagens tenta criar alguma empatia com público. Afinal, ninguém torce por alguém que não conhece. Depois, vem o grande fator desencadeador da catástrofe. Neste caso, uma onda gigantesca que deixa de casco para o ar um enorme e luxuoso transatlântico. Em seguida, começa o "filme videogame", ou seja, o núcleo central de personagens é submetido a uma sucessão de situações-limite das quais são obrigados a escapar... Ou morrer. Uma sucede a outra com precisão matemática, como nas fases de um joguinho de computador. Daí, é sentar e deixar o tempo passar, sem levar nada muito a sério.
Como entretenimento puro e simples, o filme funciona, mesmo porque esbanja nos efeitos especiais, enchendo os olhos da platéia. Quando sair em DVD, será também uma boa opção para os profissionais que fazem palestras de treinamento, já que seu roteiro é repleto de "exemplos" de trabalho em equipe, liderança motivacional e todos estes temas que a turma de Recursos Humanos adora.
Difícil dizer se propositalmente ou não. O fato é que o elenco parece ter sido escolhido em função se suas "experiências anteriores" com situações catastróficas. Richard Dreyfuss esteve em Tubarão, Emily Rossum em O Dia Depois de Amanhã e Kurt Russell em Stargate. Isso sem falar em Josh Lucas, que atuou no catastrófico Stealth - Ameaça Invisível, mas isso já é outra história...
O diretor alemão Wolfgang Petersen tem experiência no tema, pois foi justamente um filme sobre submarinos (o ótimo O Barco - Inferno em Alto Mar) que o lançou no mercado internacional. Depois, já nos EUA, Wolfgang não demonstrou o mesmo talento, tendo dirigido os medianos Força Aérea Um, Mar em Fúria e Tróia. E com certeza não será Poseidon o filme que reerguerá sua carreira: com um custo estimado de US$ 160 milhões, faturou pouco mais que ¼ desta soma nas bilheterias dos EUA. Com o perdão do trocadilho ruim, um verdadeiro naufrágio financeiro.

Saí da projeção de Piratas do Caribe 2 - O Baú da Morte meio tonto. A quantidade de informações que o filme bombardeia sobre nossos olhos, ouvidos e mentes chega a atordoar. São duas horas e meia de um visual arrebatador, direção de arte exuberante e efeitos especiais que fazem até os mais céticos acreditarem que piratas de verdade podem desembarcar a qualquer momento num cinema perto de você. Com alguma imaginação, quase se sente o cheiro dos marujos. Ah, claro, a música não pára quase nunca, como virou mania entre os arrasa-quarteirões.
Vale, antes de mais nada, uma recomendação: para curtir melhor esta continuação, tente ver (ou rever) o primeiro filme. O roteiro deste não se preocupa em explicar o episódio anterior e talvez a intenção seja esta mesma. Assim, todos nós alugamos e/ ou compramos mais DVDs do filme de 2003. A ação já começa como se estivéssemos entrado no cinema no meio da projeção. Desta vez, o capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, impagável) descobre que tem uma dívida de morte com o legendário Davey Jones (Bill Nighy, irreconhecível debaixo de uma maquiagem virtual de polvo humano, ou coisa parecida), capitão do navio fantasma Flying Dutchman. O descolado Jack não vai medir esforços para encontrar uma forma de fugir de sua eterna maldição, nem que para isso seja necessário envolver até o pescoço os "amigos" Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley).
O roteiro, na verdade, não é o forte de Piratas do Caribe 2. Algumas idas e vindas desnecessárias acabam criando "barrigas" (momentos redundantes nos quais o filme parece "patinar") que quase prejudicam o resultado final. Quase. O fascínio visual da produção é tão sedutor que acaba superando as fragilidades da narrativa. Seu grande mérito é utilizar com competência o que há de mais moderno em termos de recursos visuais cinematográficos para recriar diante dos nossos olhos um dos mundos mais antigos que as câmeras já captaram: o dos piratas.
A franquia Piratas do Caribe é uma espécie de Indiana Jones deste início de século. Da mesma forma que Steven Spielberg e George Lucas ressuscitaram na tela grande do cinema, com toda a tecnologia disponível na época, as aventuras clássicas e juvenis que faziam a alegria das matinês dos nossos pais e avós, agora o diretor Gore Verbinski e o produtor Jerry Bruckheimer nos fazem mergulhar no fascinante universo de navios fantasmas, bucaneiros e tesouros escondidos. O encanto é inevitável. Junte-se a isso um elenco dos mais carismáticos e o resultado é um mega-sucesso que superou os US$ 130 milhões de bilheteria somente no seu primeiro final de semana nos EUA, batendo todos os recordes de estréia em todos os tempos (o anterior era do Homem-Aranha, com US$ 114,8 milhões).
Desnecessário dizer que o terceiro capítulo - filmado simultaneamente a este segundo - está previsto para 2007. Em time que está faturando não se mexe.

PEQUENA MISS SUNSHINE
Por Angélica Bito
criticas@cineclick.com.br
Sabe aqueles filmes típicos norte-americanos, nos quais belos atores conseguem tudo o que querem? Nos quais verdadeiros modelos de beleza conseguem atingir o tão almejado "sonho americano"? Essa tendência é algo até "fora de moda" no cinema norte-americano da atualidade. Prova disso é o tremendo sucesso que Pequena Miss Sunshine tem feito nos cinemas norte-americanos. A produção independente dirigida pelos estreantes Jonathan Dayton e Valerie Faris (experientes em vidoeclipes) vai na contramão desse cinema protagonizado por pessoas "certinhas" e coloca personagens divertidos e humanamente comuns como protagonistas. Num roteiro dinâmico, engraçado e emocionante, fazem desta comédia num dos melhores filmes de 2006.
A pequena Miss Sunshine do título é a adorável Olive (Abigail Breslin). Aos sete anos, ela adora participar de concursos de beleza. O que é estranho, já que sua beleza não segue os padrões presentes em eventos como esses. Mesmo com enormes óculos de grau e uma adorável "pancinha", Olive sonha em ser Miss-alguma-coisa. Ela acaba sendo qualificada para participar do concurso que escolherá Miss Sunshine. O detalhe é que ela e sua família deverão atravessar os EUA para participar.
A família de Olive é o que chamaríamos de desajustada. O pai, Richard (Greg Kinnear), é um psicólogo que trabalha como motivador profissional e seus discursos são sempre permeados por clichês de auto-ajuda. Para ele, o mundo é dividido entre dois grupos distintos: perdedores e vencedores. E, definitivamente, sua família não está no primeiro, mas ele prefere não admitir isso. A mãe é Sheryl (Toni Collette), que tenta a qualquer custo manter a família unida, especialmente no momento em que seu irmão Frank (Steve Carell) acaba de "sobreviver" a uma tentativa de suicídio. O filho, Dwayne (Paul Dano), simplesmente parou de falar e gosta de deixar claro o desprezo que sente pelos humanos em geral. O pai de Richard (Alan Arkin), por sua vez, gosta de deixar bem claro que é velho e, por isso, pode fazer o que quiser, inclusive reclamar do frango e cheirar suas "carreiras" de heroína.
Agora, coloque esses personagens hilários dentro de uma Kombi amarela que teima em parar de funcionar a todo momento. Está formado o delicioso cenário para o desenvolvimento de Pequena Miss Sunshine. Os momentos finais, durante o concurso de beleza, conotam tudo que o filme quer mostrar: um grupo de pessoas normais que, ironicamente, são como corpos estranhos num ambiente cheio de pessoas que buscam a perfeição, funcionando como um microcosmo da própria sociedade.
Alternando momentos hilários aos dramáticos, sempre relacionados às dificuldades que seus personagens têm no meio de uma sociedade que cobra valores ridículos, o roteiro é repleto de surpresas e situações engraçadas. A direção é capaz de envolver o espectador. Reunindo atores de primeiro calibre, interpretando personagens construídos de forma sedutora, o longa-metragem emociona e diverte da forma mais deliciosa possível.
É estranho pensar que um filme como Pequena Miss Sunshine demorou cinco anos para ser produzido. Isso porque seus diretores encontraram dificuldades para conseguir apoio financeiro de estúdios. E, veja só: depois de ter sido exibido no Festival de Sundance (principal janela do cinema independente norte-americano), teve seus direitos de exibição vendidos por mais de US$ 10 milhões. Somente nos EUA, rendeu US$ 55 milhões.

Praticamente seis anos após o drama Entre Quatro Paredes, Todd Field retorna à direção no inquietante Pecados Íntimos, voltando novamente sua câmera giratória contra a hipocrisia da família supostamente média e equilibrada norte-americana. O ponto de partida é a liberação, em condicional, de Ronnie (vivido por Jackie Early Haley, um coadjuvante sem muitas chances no cinema, mas que rouba a cena neste papel), um molestador de crianças que passa a morar num bairro tranqüilo, rico e familiar. O desconforto de todos é geral diante da potencial ameaça. Porém, logo se percebe que Ronnie é apenas o lado visível e midiático da podridão daquela sociedade que se sustenta sobre os tradicionais pilares das aparências e da riqueza. Cada um a seu jeito, todos os personagens têm perversões, vazios e profundas tristezas a esconder.
O roteiro foi escrito pelo próprio diretor, em parceria com Tom Perrota, autor do livro que originou o filme. Ele acaba se centralizando em Sarah (Kate Winslet) e Brad (Patrick Wilson, de O Fantasma da Ópera). Ela, mestre em Literatura, tem visão crítica da mediocridade do mundo que a rodeia, mas não tem a atitude suficiente para mudar o próprio destino. Ele, recém-formado em Direito, há quase três anos tenta, sem sucesso, passar no exame da Ordem dos Advogados. Ambos, insatisfeitos em seus respectivos casamentos, se conhecem casualmente num playground. A atração é imediata. A traição parece inevitável.
Aos poucos, novos personagens são adicionados à trama. Cada qual deles contribuindo com um lado fascinantemente perturbador à história. A narrativa de Field é envolvente, convidativa, silenciosamente sedutora, como quem cochicha segredos inconfessáveis nos ouvidos atentos da platéia. Na tentativa de condensar as idéias do vasto livro de Perrota, muitas vezes o roteiro recorre ao pouco cinematográfico recurso da narração em off, o que não chega a incomodar, diante da profundidade das idéias e dos sentimentos de cada um dos (sempre bem construídos) personagens.
A tensão é constante. A tragédia parece se anunciar a cada cena, causando uma sensação de sufocamento que, contrariamente aos filmes comerciais convencionais, não será desatada no final da projeção. Em Pecados Íntimos, o público não exorciza seus medos. Ao contrário: carrega-os consigo para casa, após a sessão.
O filme está indicado a três Oscars: Roteiro Adaptado, Atriz para Kate Winslet e Coadjuvante para Jackie Early Haley.

Martin Scorsese é o tipo de cineasta que gosta de filmar histórias tipicamente norte-americanas. Os Infiltrados é uma delas, apesar de seu roteiro ser inspirado em Conflitos Internos (2002), de Hong Kong. Trata-se de um filme inteligente, complexo e repleto de reviravoltas. Aqui, nada é o que parecer ser e esse é o maior encanto da produção. A bandeira norte-americana está em todos os lugares avisando: isto é a América. Acostume-se.
Os "infiltrados" do filme são Colin (Matt Damon) e Bill (Leonardo Di Caprio). Apesar de terem crescido no subúrbio de Boston, num bairro dominado por descendente de irlandeses (como eles mesmos), os dois não se conhecem. Cada um está do seu "lado" da história: Colin é membro de uma gangue infiltrado na polícia local; Bill é o policial trabalhando secretamente entre os bandidos. A trama tem mocinhos e bandidos, mas não é maniqueísta. O mocinho parece bandido, o bandido parece um mocinho. As coisas não são tão simples quando aparentam ser e esse é o grande trunfo de Os Infiltrados: o espectador é desafiado a pensar o tempo inteiro e seduzido a acompanhar atentamente esta violenta e fascinante trama.
Seus personagens cheios de duplicidades, de construção complexa e boas interpretações. Jack Nicholson, como sempre, dá um espetáculo na atuação do personagem que exerce o importante papel de ser o mais forte elo de ligação entre os dois infiltrados. Nos primeiros momentos que ele aparece, a fotografia - de influência noir ao trabalhar luzes e sombras - o esconde, existe uma aura de mistério em seu personagem, aos poucos revelada.
Há muita complexidade nesta história que, em muitos momentos, lembra o "clássico dos clássicos" em se tratando de filmes de gângsteres: O Poderoso Chefão (1972). O filme também remete a um dos melhores momentos de Scorsese como cineasta, em Os Bons Companheiros (1990). São filmes complexos, com personagens repletos de profundidade envolvidos em tramas que sofrem reviravoltas e envolvem o espectador de forma fascinante. Por isso, se o filme de Coppola é um dos maiores clássicos de sua época, Os Infiltrados tem tudo parar marcar o cinema norte-americano atual.
Em tempo: a trilha sonora também merece destaque. Afinal, Martin Scorsese é um cineasta que dá atenção à música. Produziu a série The Blues e dirigiu o documentário No Direction Home, sobre Bob Dylan, só para citar alguns exemplos. Em Os Infiltrados, logo na primeira cena, Scorsese mostra Jack Nicholson caminhando vagarosamente ao som de Gimme Shelter, do Rolling Stones, numa cena primorosa também por causa da música. The Beach Boys, Allman Brothers e John Lennon também dão o ar da graça nesta trilha, que apresenta a pouco conhecida banda punk Dropkick Murphys. Formada em Boston - onde é situada a trama do longa -, mistura riffs pesados à gaita de fole (referência à origem irlandesa dos personagens).

Nos últimos anos, alguns filmes contundentes estão sendo produzidos sobre a situação de alguns países africanos que sofrem com violentos governos ditatoriais e não menos violentos grupos rebeldes, como Hotel Ruanda e Diamante de Sangue. Baseado em romance de Giles Foden, O Último Rei da Escócia é mais uma produção que elucida a violenta história recente de um país africano, a Uganda.
Trata-se de uma descrição romanceada da ascensão de um dos mais violentos ditadores da história mundial recente, o General Idi Amin (Forest Whitaker), que, ao tomar o poder no país, espalhou uma onda de assassinatos a qualquer pessoa que criticasse seu governo ou levantasse suspeitas em relação à sua fidelidade ao presidente. A história é contada sob o ponto de vista do jovem escocês Nicholas Garrigan (James McAvoy). Recém-formado em medicina, viaja à Uganda não necessariamente para salvar o mundo ou os pobres flagelados do país, mas para escapar do tédio que o domina em sua terra natal. Mulherengo inveterado, é convidado pelo presidente para ser seu médico pessoal. Logo, Garrigan vira seu braço direito e testemunha de perto as atrocidades cometidas pelo novo líder da nação. A euforia de um novo governo, vinda da população, é a mesma do médico. No começo, o novo mundo o seduz. No entanto, ele começa a ser englobado por tanta novidade e percebe que as partes obscuras dessa sua nova vida são densas demais.
Tudo em O Último Rei da Escócia gira em torno da ilusão e é isso que causa não somente a euforia de ambos os personagens, mas também a decadência. Garrigan e Amin são de formações completamente diferentes; a falta de maturidade os une e os destrói da mesma forma. Guardadas as proporções, são dois personagens desprezíveis, cada um em seu modo.
O fato de ser dirigido pelo documentarista Kevin Macdonald (Um Dia Em Setembro) faz com que O Último Rei da Escócia tenha um tom documental na direção. A câmera perde a firmeza e ganha mobilidade entre os conflitos da trama. Os enquadramentos e closes não-convencionais fazem com que o espectador tenha a impressão de estar observando algo que não deveria ver. Como uma denúncia documental. O desenvolvimento do roteiro, assinado por Peter Morgan (A Rainha), é gradativo: os personagens passam da euforia pela novidade ao temor de uma forma rápida e totalmente justificada. Na verdade, a história em si é totalmente apoiada nos personagens e na relação entre os dois protagonistas.
O maior destaque de O Último Rei da Escócia é a forma como Forest Whitaker rouba a cena na composição do General Amin. Dependente, bufão, farrista e sedutor quando toma o poder na Uganda, seu carisma é capaz de conquistar não somente a população, mas também os estrangeiros que estão em sua terra, especialmente Garrigan. Na medida em que os acontecimentos avançam, sua imaturidade e insegurança no cargo de presidente da Uganda fazem com que ele use a violência e a repressão para manter esse poder ilusório em suas mãos. Indicado ao Oscar e ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator, Whitaker dá a força necessária para sustentar a trama.

Assinado por Neil Burger em seu segundo longa-metragem, O Ilusionista é um filme dirigido de maneira clássica, lembrando os dramas dos anos 40. Com reconstituição de época impecável, trata-se de um filme elegante. A fotografia, estonteante, valoriza o excelente desenho de produção. Ao mesmo tempo em que tem elementos que remetem aos filmes antigos, O Ilusionista tem um roteiro cheio de reviravoltas, traições e reencontros.
O ilusionista do título é Eisenheim (Edward Norton). Pobre, cresceu fascinado com pequenos truques de mágica. Cresceu estudando na Europa Oriental, onde aprendeu grandes feitos de ilusionismo. Na virada do século 19, volta a Viena, sua terra natal, onde reencontra seu amor de infância, Sophie (Jessica Biel). No entanto, ela está noiva do poderoso príncipe Leopold (Rufus Sewell). Entre uma e outra apresentação de magia que sempre lota os teatros vienenses, Eisenheim tenta reconquistar a mocinha do filme e driblar o poder de seu noivo.
Em muito O Ilusionista se assemelha a O Grande Truque, outro filme recente que foca o mundo dos ilusionistas no século 19. Aqui, o foco está mais voltado ao romance entre os dois protagonistas. O roteiro, baseado em conto do escritor Steven Millhauser, envolve e seduz o espectador da mesma forma que fazem os truques de mágica do protagonista com sua platéia, sempre atônita, desenvolvendo mistérios e romance de uma forma elegante. No entanto, essa dinâmica é perdida enquanto caminha para o final, especialmente quando ensaia uma história com fundo sobrenatural. A conclusão de O Ilusionista, repleta de reviravoltas e revelações - o que não deixa de surpreender a platéia hipnotizada -, é um tanto quanto atropelada, destoando do resto do filme, desenvolvido com tanto cuidado.

O Grande Truque é um filme repleto de mágica em todos os sentidos. Com certeza, não há um meio mais apropriado do que a tela do cinema para transmitir a fantasia que os grandes ilusionistas passam para a sua platéia. Dirigido por Christopher Nolan, o filme traz de volta a parceria de sucesso com o ator Christian Bale, de Batman Begins, ao lado de Hugh Jackman, o Wolverine de X-Men, O Filme.
Um truque de mágica pode parecer simples para os leigos, mas não é bem assim, principalmente na virada do século, em Londres, período em que é ambientada a história. O filme explica que são necessários três atos para constituir uma boa mágica: A Promessa, no qual o mágico apresenta um objeto comum que, geralmente, não é; A Virada, em que esse objeto comum será transformado em algo extraordinário, momento em que todos tentam descobrir o segredo; e O Grande Truque, no qual ocorre a mudança e a grande surpresa para a platéia que sempre fica estarrecida com o resultado. E é nessa mesma seqüência que os fatos vão acontecendo no filme, com um final surpreendente.
O longa possui três períodos que se cruzam: um presente e dois passados distintos. Alfred Borden (Christian Bale) é o rival direto do mágico Robert Angier (Hugh Jackman). Já na primeira cena, acompanhamos a morte misteriosa de Anguie. Borden é o principal suspeito e é preso por isso. Na prisão, o mágico recebe o diário do rival e passa a conhecer melhor a vida e os truques do falecido. As cenas vão acontecendo enquanto lê o diário, como um flash-back, sempre querendo roubar e destruir a mágica do outro, tudo de uma maneira quase infantil. Até que a obsessão passa a falar mais alto e mandar nas ações de cada um, resultando em mortes e perdas.
Christopher Nolan é um ótimo nome para criar e dirigir um roteiro tão complexo, de forma que não se torne confuso ao espectador. As histórias se cruzam em uma linha do tempo peculiar, cheia de flash-backs. Isso poderia ter destruído o bom argumento do filme, mas, com a direção de Nolan, tornou-se um grande atrativo, sua mágica pessoal. Assim como os grandes ilusionistas desviam nossa atenção para esconder o mecanismo do truque, o cineasta utiliza a própria trama para esconder seus segredos. Para isso, uma boa iluminação se faz necessária, criando um clima de suspense e mistério.
Christian Bale (Psicopata Americano) e Hugh Jackman (Van Helsing - O Caçador de Monstros) mostram que mereceram, com louvor, o papel de protagonistas. Suas performances aumentam ainda mais o suspense, especialmente sobre quem seria o bandido ou o mocinho do filme. David Bowie está irreconhecível como o cientista Nikola Tesla, o que nos remete à qualidade da maquiagem criada.
O Grande Truque é digno de ser visto e revisto, proporcionando admiração em todos os momentos, seja pela poderosa direção de arte ou pela trama do longa. Isso prova que não há um título mais apropriado para o filme que nos revelará ser, realmente, um grande truque de mágica e efeitos especiais. Portanto, não acredite em tudo que vê.

Alguns filmes são capazes de deixar o público em polvorosa, ansioso por seu lançamento. O Diabo Veste Prada é um deles. Mas os espectadores que aguardam esta comédia são, em sua maioria, interessados em moda. Afinal, esta produção brinca com este mundo, frívolo quando visto pela ótica da maioria dos espectadores. E esta aí o maior trunfo de O Diabo Veste Prada: o filme trata a moda com seriedade, tornando-se melhor ainda do que o esperado. Até mesmo por pessoas como eu, fãs do livro homônimo de Lauren Weisberger, no qual o roteiro foi inspirado.
Dirigida por David Frankel (mais conhecido por seus trabalhos na direção de séries televisivas), a trama é centrada na figura de Andy Sachs (Anne Hathaway, de O Segredo de Brokeback Mountain). Recém-formada em jornalismo, ela se muda para Nova York a fim de conseguir um emprego como articulista em alguma revista da cidade. Mas ela acaba conseguindo trabalho somente na revista de moda Runway, desconhecida pela garota até o momento em que decide tentar uma vaga como assistente de Miranda Priestly (Meryl Streep), a poderosíssima chefe de redação da publicação.
Todos dizem que é emprego desejado por milhares de garotas, mas Andy não faz idéia do porquê. Ao conseguir a tão desejada vaga, têm início os tormentos na vida da jovem. Sua vida pessoal é anulada na medida em que os pedidos (sempre emergenciais) de Miranda tornam-se cada vez mais absurdos, a qualquer hora do dia (ou da noite). Na Runway, a jovem jornalista toma contato não somente com os problemas que surgem ao trabalhar para uma pessoa tão exigente quanto Miranda, mas também com o mundo da moda. Andy passa por uma mudança radical, tanto visualmente quanto em relação ao seu comportamento, mostrando-se muito mais preocupada com o visual do que na época na qual nunca havia pisado no alvo piso da redação da Runway.
O Diabo Veste Prada funciona muito bem como adaptação do livro homônimo. Muitos dramas presentes na publicação, bem como detalhes sobre a batalha pessoal de Andy para conseguir manter a sanidade na Runway, ficaram de fora do roteiro escrito por Aline Brosh McKenna (Leis da Atração), que preferiu priorizar a participação de Miranda na história - que, no livro, era apenas a pessoa que infernizava a vida da protagonista. Idéia excelente, já que Meryl Streep é capaz de humanizar o personagem de uma forma que o livro nunca conseguiria (nem pretendia). Meryl compôs uma chefe exigente, perfeccionista e durona, capaz de existir em qualquer tipo de empresa. De coadjuvante, passou a ser protagonista. Outro acerto do roteiro foi a criação de novas e surpreendentes situações, fazendo com que a produção agrade e surpreenda os que leram o livro. E, para os brasileiros, mais um atrativo: a tão falada presença de Gisele Bündchen como uma das funcionárias da revista. São poucas as falas, mas a modelo brasileira não decepciona nem deve virar piada, como aconteceu com sua incursão cinematográfica anterior (Táxi).
Claro que a atenção deveria ser redobrada em relação aos figurinos. Afinal, O Diabo Veste Prada é uma deliciosa comédia cuja ação acontece no mundo da moda. Miranda Priestly comanda a moda mundial e se veste de forma sóbria, porém cheia de estilo. Elegância, inclusive, é a palavra de ordem no figurino criado por Patricia Field, um guru atualmente entre os fashionistas (como são conhecidos os interessados por moda) por conta de seu trabalho no seriado Sex And The City (pelo qual também passou o diretor David Frankel), no qual apresentava atenção redobrada nos figurinos. A excelente reputação de Patrícia rendeu ao filme o empréstimo de peças não somente da grife que dá nome à produção, mas também Chanel (predominante no vestuário de Andy), Valentino, Donna Karan, Bill Blass, Calvin Klein, Marc Jacobs e Dolce & Gabbana. A própria figurinista revelou que as peças presentes no guarda-roupa usado em O Diabo Veste Prada devem valer mais ou menos US$ 1 milhão.
Apesar do roteiro, performances e figurinos serem acertados, existe um "porém" em O Diabo Veste Prada: a trilha sonora. Capaz de reunir boas canções - que vão de Madonna ao grupo escocês Belle & Sebastian -, a compilação perde o brilho por não conseguir dialogar com as cenas. Mesmo assim, O Diabo Veste Prada é uma comédia dramática acima da média. Ppesar de fazer piada com as frivolidades do mundo da moda, o filme é capaz de levar esse cenário a sério, passando longe do enfadonho. É a prova de que moda consegue ter conteúdo, assim como uma boa comédia.

O ex-cineasta e escritor Peter Bogdanovich disse há alguns anos que "todos os bons filmes já foram feitos". Discordo frontalmente, embora seja obrigado a reconhecer que muitas produções recentes se assemelhem a uma espécie de amálgama de "bons filmes já feitos". Happy Feet: O Pingüim, por exemplo, começa com uma cena musical que lembra demais Moulin Rouge - O Amor Em Vermelho!, segue nitidamente inspirado pelo clássico conto infantil O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, e depois se transforma num tipo de versão animada de A Marcha dos Pingüins. O que não chega a um demérito. O desenho tem, sim, suas qualidades.
Ambientado magnificamente (é incrível o que o desenvolvimento da computação gráfica tem conseguido!) no Pólo Sul, o filme mostra o nascimento de Mano (ou Mambo, na versão original), um simpático pingüim imperador que, contrariamente a todos de sua espécie, não sabe cantar. Ele sabe, sim, sapatear, mas esta habilidade é considerada estranha e até ofensiva no seu grupo social. Desta forma, Mano cresce como uma espécie de "nerd", "perdedor", ou, como diriam os norte-americanos, loser, incapaz de se ajustar socialmente. Porém, ao encontrar acidentalmente um grupo diferente de pingüins "latinos", Mano vê uma luz nascer no fim da geleira.
Happy Feet: O Pingüim é um filme irregular. Brinda o público com imagens belíssimas, desenvolve personagens divertidos, mas traz um roteiro de certa forma desequilibrado, que demora para engrenar, se estende demais em determinadas seqüências e nos minutos finais tenta resolver tudo rapidamente. Mesmo assim, acena com interessantes subleituras para quem quiser lê-las. Por exemplo, a tradicional e intolerante sociedade dos pingüins imperadores, comandada por um conselho de anciãos, não tem um jeitão de crítica ao Partido Republicano?
Talvez o principal problema de Happy Feet: O Pingüim seja a busca desenfreada pela conquista tanto do público infantil como o adulto. Os produtores sabem que este tipo de desenho animado de alto custo (a estimativa é de que foram investidos US$ 85 milhões na produção) não pode correr o risco de fracassar nas bilheterias. E, para isso, necessitam agradar ao mesmo tempo pais e filhos. O que não é nada fácil. Nesta difícil tentativa, o filme levanta problemas que talvez sejam adultos demais para as crianças, ao mesmo tempo em que traz longas cenas de perseguição que talvez sejam cansativas demais para os adultos. Uma indefinição sempre perigosa.

Half Nelson tem cara de filme independente: a iluminação é natural sempre, a câmera é tremida (o que incomoda no começo, mas o espectador logo se habitua a isso), a trilha sonora é incrível (com músicas já lançadas da banda indie norte-americana Broken Social Scene) e a história foca personagens desajustados. Mas a atuação da dupla de protagonistas - Ryan Gosling (O Mundo de Leland) e a estreante em longas-metragens Shareeka Epps - fazem com que o filme tenha aquele delicioso gosto amargo dos filmes independentes mais tristes e angustiantes, não os que simplesmente seguem fórmulas.
Primeiramente, é importante observar que o motivo deste título ainda é um mistério para mim, já que ninguém no filme se chama Nelson. Mas tudo bem, isso não impede a compreensão desta história de amizades estranhas entre pessoas não mais normais do que os ambientes em que vivem.
O filme se passa nos subúrbios de Nova York e explora a amizade entre o professor Dan Dunne (Gosling, indicado ao Globo de Ouro e Oscar pela brilhante atuação) e a aluna Drey (Shareeka Epps). Ela é negra e não tem referências adultas em seu dia-a-dia; ele é branco, letrado e viciado em drogas. Ela é brava e fechada; ele é carismático e brincalhão. Juntos, encontram um no outro referenciais para suas próprias vidas em situações que giram em torno do cotidiano de uma comunidade suburbana norte-americana, como o racismo, o tráfico e consumo de drogas.
Pela simplicidade e profundidade de seus personagens, Half Nelson merece ser apreciado e degustado com calma. As atuações, fortes e convincentes, fazem com que o drama seja crível, envolvendo o espectador. A dinâmica que se forma entre os dois protagonistas, tão diferentes e tão parecidos na essência, é essencial para que a produção funcione de forma plena.
Curiosidade: a história apareceu num filme pela primeira vez em 2004, quando o cineasta Ryan Fleck dirigiu o curta-metragem Gowanus, Brooklyn, que também conta a história de uma menina (Shareeka Epps) que desenvolve uma amizade com o professor.

Em 2027, as mulheres não conseguem mais ter filhos; a pessoa mais jovem do mundo tem 18 anos e alguns meses; a guerra se espalha pelas ruas das grandes capitais anunciando um verdadeiro colapso mundial. Esse é o cenário criado pela escritora P.D. James no livro The Children Of Men, inédito no mercado brasileiro, que deu base à criação do roteiro de Filhos da Esperança. O drama, que se passa em Londres, mostra uma sociedade futurista distópica.
A ação é centrada na figura de Theo (Clive Owen), um homem que parece ter desistido de sentir algo pela humanidade que se desfaz na frente de câmeras de TV. Vivendo numa sociedade de teores fascistas, cujo governo persegue imigrantes como se fossem criminosos, onde a guerra civil é tão iminente quanto a infertilidade das mulheres, Theo encontra raros momentos de tranqüilidade ao lado do melhor amigo, Jasper (Michael Caine), um divertido hippie que ouve bandas como Deep Purple e Radiohead enquanto fuma um baseado como uma forma de conservar-se nos tempos antigos, quando a vida ainda era boa. Theo passa por toda a ebulição social à sua volta tentando não se envolver. Mas, quando Julian (Julianne Moore) reaparece em sua vida, tudo muda de forma radical. De repente, o protagonista é inserido até o pescoço numa jornada de teores não somente políticos, mas totalmente pessoais, a fim de salvar talvez a última esperança que as pessoas possam encontrar no meio de tanto caos.
No auge de sua maturidade como diretor, o mexicano Alfonso Cuarón (E Sua Mãe Também) conduz o espectador por meio de um cenário caótico. Perde nos momentos em que focaliza uma verdadeira guerra que se forma entre rebeldes e Exército. Mas ganha, e muito, quando mostra o drama do protagonista em proteger o símbolo da esperança presente no título da produção. Também é interessante observar os paralelos que traça entre ficção e realidade quando foca a falha da organização rebelde em tentar, por meio da violência, enfrentar o governo fascista. Em diversos pontos, o filme assemelha-se com o recente V de Vingança, mas aprofunda-se mais no drama e menos no estilo estético do filme baseado em HQ homônima.
Merecem destaque, além das atuações (especialmente de Michael Caine, adorável e comovente como o cartunista político amigo do protagonista), os cenários que compõem a Inglaterra futurista idealizada por Cuarón. Ao mesmo tempo em que é distópica, é completamente realista, ajudando para que o filme envolva o espectador da forma que pretende. Assim como a trilha sonora, que exerce função essencial para a criação dos climas necessários ao longa-metragem.
A premissa de Filhos da Esperança é forte: é estranho imaginar um mundo sem o barulho de crianças nem choros de bebês - coisas que incomodam a maioria das pessoas. Nunca pensamos que esses barulhos que tiram os mais estressados do sério significam alguma esperança. Piegas? Bastante, mas a forma como Cuarón desenvolve essa premissa é capaz de emocionar de uma forma bastante sincera. Talvez o instinto maternal que as mulheres carregam em seus ventres faça com que esse público deixe a lágrima correr mais solta.
Apesar de não explicar direito por que as mulheres se tornaram férteis, nota-se que não é algo tão absurdo de acontecer em vinte anos. Por ser tão bem contextualizado em relação ao panorama sócio-político que encontramos atualmente, apesar de apenas dar pinceladas em relação ao pano de fundo que levou a sociedade a essa situação, Filhos da Esperança assusta. E comove.
Dreamgirls - Em Busca de um Sonho é adaptação de um famoso musical da Broadway que, por sua vez, é baseado na história do trio de cantoras chamado The Supremes, formado por Florence Ballard, Mary Wilson e Diana Ross, representada aqui pelo personagem Deena Jones, de Beyoncé Knowles. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor Bill Condon, acostumado com adaptações do gênero como Chicago.
Todo musical, quando é bem-feito, possui forte apelo sobre o público e este é o caso deste longa-metragem. O clima envolvente eleva o filme a um status de superprodução, no qual as músicas passam a ser um complemento para os personagens bem construídos, figurinos glamorosos e enredo contagiante, resultando em um ótimo entretenimento.
Ambientado na década de 60, em Detroit, Dreamgirls - Em Busca de um Sonho conta a história de três amigas - Deena Jones (Beyoncé Knowles), Effie White (Jennifer Hudson) e Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) - que sonham ser reconhecidas por seu talento: cantar. Elas formam o grupo The Dreamettes e buscam, por meio de shows de talento, ser descobertas. E isso acontece. Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx) é um vendedor de carros, que quer, a todo custo, deixar seu nome marcado no mundo da música. É ele quem descobre as garotas e vira o agente do grupo.
A partir daí, elas seguem como back vocals de James "Thunder" Early (Eddie Murphy). Porém, o talento das três amigas e a ambição de Curtis as levam a outro patamar. Para alcançar o sucesso, o empresário tira a primeira voz de Effie, que também é sua namorada, e passa o cargo para a tímida Deena, por quem está apaixonado. Vários conflitos e mudanças irão transformar a vida de todos os envolvidos diante da ambição do agente.
Possivelmente, um dos fatos mais interessantes deste longa esteja nos bastidores, como o fato da estreante Jennifer Hudson ser uma das finalistas do reality show American Idol, dos EUA. Ela é o perfeito sinônimo de que vencer não é tudo, pois Jennifer pode ter perdido o concurso, mas teve a chance de expor seu talento ao mundo, ganhando o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante e uma indicação ao Oscar de 2007. Além disso, a cantora e iniciante atriz pôde mostrar que é melhor que muitas que possuem um certo currículo cinematográfico, como a cantora/ atriz Beyoncé Knowles (A Pantera Cor de Rosa). Jennifer foi superior na interpretação e nas canções em que interpretou, tornando sua posição de coadjuvante ingrata à sua apresentação. Para interpretar Effie White, Jennifer Hudson não economizou esforços e engordou dez quilos para viver a personagem e superou 780 concorrentes ao papel. Mas não foi somente Jennifer que brilhou como coadjuvante; o ator Eddie Murphy (Um Tira da Pesada), fora de seu ambiente natural que é a comédia, deu um show de dramatização e emoção, o que lhe rendeu também sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
As músicas não poderiam deixar por menos, já que três canções originais foram indicadas ao Oscar (sem contar a indicação em Melhor Som), em uma categoria com apenas cinco, atestando a qualidade da trilha sonora. O trabalho dos envolvidos nesta produção foi essencial para seu sucesso. A direção de arte (outra que recebeu indicação ao Oscar) caprichou nos detalhes para representar o período em que Dreamgirls - Em Busca de um Sonho se passa. Evidentemente que o figurinista que trabalha com material de época já deve ser elogiado por sua dedicação e estudo, mas é a composição de diversos elementos que dignificam esse esforço, ou seja, a união de distintos componentes em um nível igualitário, no qual nada se sobressai ao próprio filme, o que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino. Mérito ao diretor Bill Condon que conduziu todas as diretrizes que formam este longa-metragem de maneira forte e segura.
Dreamgirls - Em Busca de um Sonho jamais poderá ser considerado o melhor filme do ano, mas com certeza é o melhor musical.

Se a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961) vivesse nos anos 90, provavelmente não teria idéia da procedência dos diamantes que gosta de admirar na vitrine de sua joalheria favorita. Nem os milhões de mulheres que, como ela, sonham com um anel incrustado com um belo diamante. Afinal, ao observar algo tão valorizado como essa pedra em seu estado lapidado, não se tem idéia de como ele pode ter parado lá. Hoje, as pedras que chegam do continente africano têm a garantia de que foram obtidas sem terem sido envolvidas em conflitos civis locais. Pelo menos é o que garantem os grandes comerciantes e, se isso acontece, é por causa da notoriedade mundial de casos como os que ilustram a trama de Diamante de Sangue. Como não poderia deixar de ser, graças à densidade do tema, trata-se de um filme duro e corajoso.
Diamante de Sangue mostra o encontro de dois personagens que ocupam castas totalmente opostas na sociedade do país africano de Serra Leoa, no fim dos anos 90. Danny Archer (Leonardo DiCaprio) nasceu na África do Sul. Descendente de europeus, acabou sozinho e seguiu o caminho que conseguiu: virou contrabandista de diamantes, os conhecidos como "diamantes de sangue", que financiam os violentos grupos revolucionários do país. Solomon Vandy (Djimon Hounsou) é um simplório pai de família que obtém seu sustento por meio da pesca. Seus destinos se cruzam quando a família de Solo, como é chamado, é capturada pelos guerrilheiros que atuam na região e ele é obrigado a trabalhar numa mina de diamantes. Lá, descobre um gigante diamante rosa, mas não o entrega por ver na pedra a chance de juntar-se novamente à família. Quando ambos são presos, Archer descobre a pedra e, como sempre, movido pela ambição, aproxima-se do pescador para, enfim, tê-la em mãos. Juntos, embarcam numa árdua e violenta jornada através de Serra Leoa, cada um com um objetivo: Archer quer a pedra para conseguir sair do continente como sempre almejou; Solo só pensa em encontrar sua família e, principalmente, o filho, Dia (Kagiso Kuypers), capturado pelos guerrilheiros.
Esta é a história central de Diamante de Sangue, mas existe uma rica gama de personagens e tramas paralelas que constroem este assustador panorama. Como da jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), que, idealista, entra no caminho da dupla protagonista com o objetivo de tornar pública a história de Archer e seus envolvimentos escusos com as empresas que comercializam os "diamantes de sangue" na Europa e EUA. Mas a mais fascinante e assustadora é a que envolve Dia: capturado, torna-se membro do exército de guerrilheiros locais e, ao lado de outras crianças com não mais do que 12 anos, são educados a pegar em armas em nome da revolução numa verdadeira lavagem cerebral.
Diamante de Sangue serve para afirmar o melhor momento vivido por Leonardo DiCaprio em sua carreira. De galã juvenil em filmes como Romeu + Julieta (1996) e Titanic (1997), agora demonstra maturidade suficiente para compor papéis densos e convincentes como este. Não à toa, é indicado ao Globo de Ouro não somente por esta atuação, mas também em Os Infiltrados - outra excelente performance recente do ator. A arrogância e ganância de seu personagem, no entanto, não seria nada sem o ponto de vista extremamente correto construído por Djimon Hounsou (A Ilha), que também apresenta uma de suas melhores performances, dando a alma necessária para o equilíbrio desta produção.
A direção assinada por Edward Zwick (O Último Samurai) é caótica, imprimindo bastante tensão ao longa, especialmente nos momentos mais violentos. Quando o foco é voltado à população e à cultura local, ganha uma mão mais documental, lembrando bastante o trabalho de Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel. No começo, a direção caótica ajuda; no entanto, enquanto a produção caminha para o final, existe certa disparidade. O filme não consegue se resolver muito bem e, quando o faz, apela para soluções previsíveis demais, que não acompanham a intensidade presente no resto do longa.
Mesmo assim, Diamante de Sangue não deixa de ser um relato contundente de uma violenta época que está mais no passado do país do que no presente, já que, hoje, os comerciantes de diamantes lapidados garantem que existe um rigoroso controle em relação à procedência das pedras. A trama, estritamente local, torna-se universal por ter personagens movidos por valores humanos comuns, como a ética, a moral e a ganância. Além disso, ela envolve o espectador ao mostrar a aventura pela qual passam os protagonistas. A história é complicada, bem como o tema abordado - que mexe com as raízes da economia mundial -, lembrando a relação que Syriana - A Indústria do Petróleo tem com o mercado do conhecido como "ouro negro". No entanto, existem mais laços emocionais no roteiro de Diamante de Sangue, criando uma empatia quase que automática com o público.
É sempre bom manter em mente que a trama, apesar de bastante inspirada pelo documentário Cry Freedom (de Sorious Samura), é fictícia, o que não deixou de preocupar os comerciantes de jóias quando a produção começou a acontecer. No entanto, Diamante de Sangue explora mais os conflitos civis ligados ao comércio ilegal das pedras. Portanto, não há muitas chances das mocinhas pararem de sonhar com jóias cheias de diamantes por causa desta produção, mas sim do espectador se emocionar com a trama envolvente e muito bem interpretada.

O roteiro de Dália Negra é inspirado no assassinato real da aspirante a atriz Elizabeth Short, encontrada morta no subúrbio de Los Angeles - cidade efervescente na época especialmente por conta a indústria cinematográfica. Famosa não por seu talento dramático, mas sim por sua morte bizarra, Elizabeth é inspiração deste suspense com ares de film noir dirigido por Brian De Palma.
Mas o centro da ação não está na atriz, mas sim na dupla de detetives Bucky (Josh Hartnett) e Lee (Aaron Eckhart), ex-boxeadores que são escalados para trabalharem juntos num caso envolvendo gângsteres e tráfico de drogas. No entanto, o aparecimento do corpo esquartejado de Elizabeth Short (Mia Kirshner) faz com que ambos mudem seu foco, acreditando que o assassinato está interligado com o caso investigado pela dupla anteriormente. O problema é que ambos ficam obcecados: Lee pela vítima; Bucky pela rica Madeleine Linscott (Hilary Swank), fisicamente parecida com a atriz morta. Ao mesmo tempo, ambos parecem disputar a atenção da bela Kay (Scarlett Johansson), namorada de Lee.
Os elementos de um típico film noir (gênero de suspense criado pelos norte-americanos em plena Depressão dos anos 30 para responder a demanda por filmes dos espectadores, apesar da crise econômica do país) estão em Dália Negra: uma (neste caso, mais do que uma) mulher fatal, suspense, história narrada por um detetive, um assassinato desvendado aos poucos (cujo desfecho é, normalmente, surpreendente ao espectador). A fotografia, que valoriza as tomadas sombrias e as sombras e silhuetas dos personagens em momentos críticos na trama, também está presente em Dália Negra, demonstrando que se trata de mais um filme de De Palma que dialoga diretamente com o gênero.
Bonito aos olhos, este suspense traz direção de arte, figurino, fotografia e atores belos, o que seduz o espectador, ao mesmo tempo em que apresenta a câmera fluída e sugestiva do diretor. No entanto, trata-se de uma trama cansativa. Ao misturar dois crimes, perde-se o foco. A impressão é que os fatos são apresentados de forma bagunçada demais, fazendo com que o longa-metragem perca-se em seus próprios excessos. A resolução do crime tem seus toques de surpresa, mas nada que chegue a despertar o espectador. Além disso, Dália Negra traz interpretações duras, falsas, especialmente dos protagonistas. Tanto que os filmes de Elizabeth Short assistidos pelos detetives demonstram mais sentimento do que qualquer personagem da trama. Ironicamente, ela é a única personagem sem vida da história.

Quem acompanha cinema de perto conhece muito bem a capacidade dos produtores norte-americanos em se repetirem constantemente. Ousar significa arriscar o dinheiro do investimento, coisa que nenhum produtor de filme comercial gosta de fazer. A solução, então, é fazer novamente o mesmo filme. Click, de Frank Coraci, é assim: um filme que você já viu antes, agora disfarçado de novidade.
Veja: Michael (Adam Sandler, de Espanglês) é um arquiteto estressado, sem tempo para curtir sua família. Distanciado do próprio lar, ele mal sabe da vida dos filhos e não consegue sequer utilizar o controle remoto correto para mudar os canais de sua TV. Certa noite, num acesso de raiva, ele sai à procura de um controle remoto universal, que consiga administrar todos os aparelhos eletrônicos de sua casa. Como se isso fosse resolver seus problemas. E acaba comprando um controle "mágico", de poderes absolutos, capaz de comandar o tempo e o espaço. A partir daí, Michael se sente o próprio "rei da cocada preta", manipulando a tudo e a todos conforme melhor lhe convier. Nem é preciso dizer que as conseqüências serão desastrosas.
Com algumas pequenas variações, trata-se da mesma história e exatamente do mesmo conceito de Todo Poderoso, com Jim Carrey. E... Surpresa: ambos os filmes são roteirizados pelos mesmos Steven Koren e Mark O’Keefe. Será que eles ganharam em dobro para escrever a mesma coisa duas vezes?
Click, porém, tem um agravante: seu diretor é o "mão pesada" Frank Coraci, o mesmo de O Rei da Água e da refilmagem de A Volta ao Mundo em 80 Dias. É um cineasta que desconhece o significado da palavra "sutileza" e não se acanha em escancarar piadas e situações (algumas de gosto duvidoso) da maneira mais escrachada possível. Quando o filme assume um tom cômico, beira "A Praça é Nossa". Quando parte para o dramático, deixa novelas mexicanas encabuladas. Assim, os bons momentos do filme (sim, eles existem) se diluem, perdidos entre banalidades. Pelo visto, Coraci é um seguidor do antigo produtor francês Charles Pathé, que, no início do século 20, já dizia que "nunca ninguém perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público". Devia ter razão. Click faturou mais de US$ 130 milhões só nas bilheterias dos EUA.
Tem, pelo menos, um ótimo elenco coadjuvante, com a bela Kate Beckinsale (Van Helsing - O Caçador de Monstros), o sempre estranhíssimo Christopher Walken e Henry Winkler, do antigo seriado Happy Days. David Hasselhoff, de S.O.S. Malibu, nunca esteve tão à vontade fazendo o papel de um canastrão. Por que será?

Antes de mais nada, é importante falar um pouco sobre o projeto ao qual pertence Cartas de Iwo Jima. Idealizado por Clint Eastwood, que também assina a direção, tratam-se de dois filmes - este e A Conquista da Honra - que mostram lados opostos de um mesmo conflito. Em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Iwo Jima, no Japão, foi de extremo significado estratégico para ambos os países. O local era ponto de partida para a campanha norte-americana em território japonês. Portanto, último forte do território japonês antes da ilha principal ser invadida. Os dois filmes formam um panorama abrangente e extremamente humano desta passagem na história mundial, mostrando a visão de soldados de ambos os lados. Complementares, formam um painel completo, que passa longe do maniqueísmo comum na maioria dos filmes que relatam conflitos bélicos.
O roteiro é baseado no livro Pictures Letters From Commander In Chief, com cartas do general Tadamichi Kuribayashi, compiladas na publicação por Tsuyoko Yoshida. Juntas, revelam características pessoais de alguns dos envolvidos no conflito em Iwo Jima, especialmente o general, interpretado por Ken Watanabe (O Último Samurai). A história do filme, portanto, é contada principalmente pelo ponto de vista do militar, destacado para comandar os soldados que defenderiam a ilha japonesa da invasão norte-americana. Ele revela em sua correspondência suas ansiedades e um pouco dos acontecimentos durante o mês que esteve no local defendendo sua pátria.
A ilha de Iwo Jima, cujo terreno infértil fez com que ela fosse quase que desabitada por japoneses, foi bastante importante estrategicamente para definir os rumos do conflito. A história de Cartas de Iwo Jima começa alguns dias antes da chegada dos soldados norte-americanos na fétida terra. Lá, recebem a função de explorar as cavernas do local, trabalhando o terreno para a recepção do inimigo. Dentre os soldados japoneses, é destacada pelo roteiro a figura de Saigo (Kazunari Ninomiya), um jovem padeiro recrutado para a guerra que está prestes a ter o primeiro filho. Em suas cartas, revela seu maior desejo: sobreviver para voltar à família. O mesmo de tantos outros cidadãos que participam da campanha na ilha.
Os personagens de Cartas de Iwo Jima são compostos de forma extremamente humana. É exatamente este o lado do conflito que Clint Eastwood pretende mostrar: mais do que homens de capacete que carregam uma arma e têm como objetivo eliminar inimigos, são pessoas com desejos, traumas, enfim, uma história. Por isso, esta produção foge do convencional em se tratando de filmes de guerra. Além de ter belas imagens relacionadas ao embate entre os dois lados do conflito, é capaz de envolver o espectador por conta da força da história conduzida pelos personagens. Principalmente em se tratando do general e o soldado, dois lados tão extremos dentro da hierarquia da guerra e tão unidos por conceitos universais, como o medo, a honra e o amor pela família.
Afinal, independente da hierarquia, todos são os mesmos numa guerra. Se Saigo não sabe muito bem por que está ali no começo do filme, defendendo aquela terra fedida e infértil, ele aprende que tipo de interesses está em jogo. Mais do que uma ilha, Iwo Jima e sua defesa estão relacionadas ao futuro do império japonês. Culturalmente, a figura do imperador entre os cidadãos do Japão é idolatrada quase que cegamente, numa relação que beira a religiosa, o que Saigo aprende na medida em que o filme é concluído. O personagem de Kuribayashi apresenta uma evolução contrária à do padeiro: na medida em que a guerra caminha, ele é capaz de aceitar a vitória mais num âmbito pessoal do que como seu dever enquanto general do exército imperial.
A honra e a família começam a ganhar um papel maior em suas motivações, ao mesmo tempo em que o fato dele conhecer a cultura norte-americana por ter vivido nos EUA é essencial para guiar seus atos. Por isso, na medida em que o filme evolui, outra importante questão é fragilizada no duelo entre nações: a nacionalidade em si, já que os personagens humanizam-se durante o mês de conflito na ilha, questão vidente não somente em Cartas de Iwo Jima, mas também em A Conquista da Honra.
Por isso, as duas produções são complementares e essenciais para que haja o entendimento completo do tipo de narrativa que Eastwood desenvolve. O diretor demonstra ter a sensibilidade ideal para mostrar esses valores na tela. A fotografia apagada, que só ganha vida, ironicamente, no vermelho do sangue derramado e da bandeira japonesa, reforça a visão em relação ao conflito: são mínimos os momentos de vida numa guerra. Mas eles existem e é esse o foco principal do filme.

Dar forma e alma a histórias fantásticas é uma das especialidades dos estúdios Pixar desde a primeira vez que lançaram um longa-metragem de animação, Toy Story, em 1995. Dez anos depois de marcar para sempre a indústria cinematográfica em parceria com a Disney, o nome "Pixar" significa qualidade em animação digital. Por isso, não é de se estranhar a ansiedade que sempre acompanha os lançamentos de seus novos filmes. Carros é seu sétimo longa-metragem de animação e segue confirmando que, nessa área, não tem para mais ninguém.
Aqui, o diretor John Lasseter (Toy Story) mergulha completamente num universo pelo qual confessa ser apaixonado: os carros. São eles os protagonistas desta imperdível animação. No centro da trama está Relâmpago McQueen (dublado por Owen Wilson na versão original), um carro de corrida estreante e ambicioso. Destaque nas pistas em busca do titulo máximo da Copa Pistão, ele disputa o troféu com outros dois carros, muito mais experientes do que ele. O Rei (dublado na versão original por Richard Petty, heptacampeão da NASCAR) é uma lenda nas pistas e está prestes a se aposentar. Chick Hicks (voz de Michael Keaton na versão original) está de olho na mesma posição que Relâmpago: a de novo queridinho das pistas.
A caminho de Los Angeles para a corrida que pode lhe dar a tão sonhada Taça Pistão, Relâmpago se perde e vai parar na pacata cidade de Radiator Springs, à beira da famosa Rota 66 - percorrida pelos protagonistas de Sem Destino (1969). McQueen fica preso ao local depois de provocar um grande acidente que destrói a estrada que cruza a cidade. Relutante, ele permanece na cidade e, com o tempo, faz amizade com os residentes locais, como a bela Porsche Sally (dublada por Bonnie Hunt na versão original e por Priscila Fantin na brasileira), Doc Hudson (dublado por Paul Newman na versão original e por Daniel Filho na brasileira) e o velho e simpático reboque Mate, que o ajudam a ver que há coisas mais importantes que troféus, fama e patrocínios.
Carros é como um bolo de aniversário que a Pixar se deu para comemorar os dez anos desde que seu primeiro longa foi lançado. Há diversas referências aos outros filmes do estúdio - culminando nas imperdíveis cenas que aparecem durante os créditos finais. Assim como as outras animações da Pixar, podemos encontrar uma história envolvente, desenvolvida por um roteiro melhor ainda. A história mostra o embate entre o novo e o velho; carros de corrida com decalques versus os "normais", com ferrugens e história; a individualidade, conseqüência do estilo de vida moderno, contra o espírito de coletividade tão perdido quanto a cidade de Radiator Springs do filme.
Também não faltam os personagens carismáticos, com os quais o espectador pode, sim, se identificar - por mais que sejam apenas carros - e, claro, a qualidade visual. A primeira cena, na qual o ponto de vista que seria da câmera está dentro da pista de corrida, é perfeita. Todos os detalhes, os ângulos, fazem com que o espectador se sinta como se fosse um dos carros competindo. Ao mesmo tempo, existe esse cuidado com cada pedra, cada grão de areia que o protagonista encontra em sua epopéia pela Rota 66 - resultado de uma extensa pesquisa feita pelos animadores de Carros. Por isso, esta produção significa que a técnica dos estúdios Pixar evolui a cada nova produção, como sempre, agradando aos pequenos e aos seus pais de maneiras diferentes, mas satisfatórias em ambas as situações.
Uma curiosidade: o sobrenome do personagem Relâmpago McQueen é uma homenagem a Glenn McQueen, animador da Pixar falecido em 2002. Inclusive, é para ele que os animadores dedicam o filme antes dos créditos subirem. E não chegue atrasado à sessão: o curta-metragem que antecede Carros, Banda de um Homem Só, é maravilhoso.

BABEL
Por Angélica Bito
criticas@cineclick.com.br
Babel é o filme que encerra uma trilogia idealizada pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Um acidente é ponto de congruência entre histórias paralelas: em Amores Brutos (2000), elas envolviam amores trágicos; em 21 Gramas (2003), o desejo de vingança; nesta produção, a incomunicabilidade. Por isso o nome do filme: a história da Torre de Babel descrita na Bíblia mostra como a incomunicabilidade entre os homens os impede de chegar aos reinos dos céus, como neste longa-metragem.
Além da incomunicabilidade, as histórias em Babel têm um ponto mais sutil de ligação, revelado aos poucos pelas tramas desenvolvidas paralelamente. O casal de norte-americanos Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett) está de férias no deserto do Marrocos, onde dois garotos, Yussef (Boubker Ait El Caid) e Ahmed (Said Tarchani), aprendem a atirar com uma arma recém-adquirida pelo pai. Richard e Suzan deixam seus filhos pequenos - Debbie (Elle Fanning, irmã mais nova de Dakota Fanning) e Mike (Nathan Gamble) - nos EUA sob os cuidados de Amelia (Adriana Barraza), que trabalha na família há bastante tempo. Imigrante mexicana, precisa atravessar a fronteira de volta ao seu país para o casamento do filho, mas não consegue ninguém para cuidar das crianças em sua viagem. Ela resolve, então, levá-las à festa ao lado de seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal). No Japão, a bela adolescente Chieko (Rinko Kikuchi) tem deficiências auditivas e vive numa Tóquio repleta de estímulos sensoriais e, principalmente, sexuais. Ela tenta lidar com essas descobertas (e a vontade de passar por elas, principalmente) e também com os cuidados excessivos do pai (Kôji Yakusho, de Eureka), especialmente após a morte da mãe. Os destinos dessas quatro famílias se cruzam a partir de um trágico incidente.
Em Babel, Iñárritu mostra maturidade na direção, provando ainda ser capaz de tocar o espectador numa trama complexa e triste. Apesar de contar com atores do calibre de Brad Pitt (indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante), Cate Blanchett e Gael Garcia Bernal, quem mais se destaca são as menos conhecidas Rinko Kikuchi e Adriana Barraza (que volta a trabalhar com o diretor depois de Amores Brutos). Especialmente a jovem atriz japonesa Rinko, que tem o desafio de interpretar uma adolescente surda e muda que quer, a todo custo, viver como as pessoas de sua idade que não possuem essa deficiência. Nos momentos em que ela passeia por uma Tóquio caótica, cheia de luzes e sons, Iñarritu usa a trilha sonora e o próprio silêncio para passar a idéia da incomunicabilidade referente à personagem, em belos e inspirados momentos. Não à toa, ambas foram indicadas ao Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante.
Marrocos, México, EUA e Japão são os cenários explorados pelo cineasta e em todas é capaz de captar o caos que surge a partir de pequenas decisões. Na relação entre pais e filhos, empregador e empregado, lei e cidadão e, porque não, entre países. E todas caminham para a tragédia graças à incapacidade de comunicação, seja política, a verbal ou mesmo a relacionada à deficiência. Iñárritu sabe como poucos tocar o espectador, que não deixa de ficar desesperado na maioria dos aflitivos 142 minutos de filme. Em Babel, o cineasta consegue tocá-lo de uma forma mais intensa ainda se compararmos com seus filmes anteriores. O resultado também seduziu os votantes do Globo de Ouro, um dos principais prêmios do cinema norte-americano: Babel foi escolhido o Melhor Filme (Drama) de 2006. O filme também fez sucesso do festival francês de Cannes, onde foi indicado à Palma de Ouro e recebeu o prêmio do júri ecumênico, o Grande Prêmio Técnico e Alejandro González Iñárritu foi o Melhor Diretor.

Rodado em locações como Catemaco (floresta tropical) e Veracruz, ambos no México, Apocalypto conta com um elenco formado por indígenas das Américas e é falado no idioma maia. É um projeto bastante ousado abraçado por Mel Gibson, com prestígio (e dinheiro) de sobra depois do fenômeno A Paixão de Cristo. Ainda pisando em terrenos delicados, como religião e cultura (só que de povos antigos, quase que extintos, o que deve criar menos polêmica do que sua produção anterior), o cineasta mostra mais um bem-feito exercício de direção neste novo filme, provando saber criar primorosas cenas de ação.
O contexto histórico é diluído durante o filme, mas sabe-se que a produção explora um drama acontecido durante o declínio do Império Maia, pouco antes da chegada de colonizadores europeus na América Central, durante o século 15. Apocalypto acompanha a jornada de Jaguar Paw (Rudy Youngblood), que vive com sua tribo numa floresta tropical. Quando ela é invadida e dominada por violento grupo, o espectador é levado a conhecer a rica cultura - especialmente visual - do povo maia. Esse novo grupo para o qual a tribo é levada é visivelmente mais desenvolvido por conta dos ornamentos corporais, armas e arquitetura. Há também um novo nível de crenças: em nome de deuses, aclamados para que suas terras sejam mais férteis, os líderes do grupo oferecem os corpos dos dominados para seus deuses. Sempre escapando por pouco da morte (por isso, é chamado de "quase" por um dos que dominam seu povo), Jaguar Paw tenta voltar à tribo e juntar-se à esposa grávida e o filho pequeno.
Apocalypto aborda uma época histórica pouco explorada pelo cinema moderno. Afinal, trata-se de um assunto perigoso. O que se sabe da cultura existente na América Central antes da chegada dos europeus é baseado em livros e no que é encontrado em escombros, objetos e construções locais. Por isso, esteticamente, não é algo impossível de ser reproduzido pelo cinema. No entanto, o desconhecimento em relação à sociedade desses povos pode causar problemas. Aqui, Gibson não consegue escapar do maniqueísmo que borra o cinema norte-americano. Essa necessidade de dois lados, o bom e o mal, faz com que ambos soem falsos. A carnificina patrocinada pelo povo dominador é exageradamente cruel. Inclusive, a violência está em Apocalypto desde a primeira cena, que mostra o protagonista e seu bando caçando uma grande anta, até o final.
Se a tribo de Jaguar Paw mata pela sobrevivência, os astecas matam em nome de sua religião. Neste aspecto, Apocalypto dialoga com A Paixão de Cristo. A intolerância cultural é motor para que a violência mais pesada no filme aconteça, dando forma ao maniqueísmo que Gibson (também autor do roteiro, ao lado do estreante Farhad Safinia) parece não querer abandonar. A crença religiosa faz com que castas diferentes de um mesmo povo se destruam. Seria uma resposta às críticas que Gibson recebeu por conta de seu filme anterior? Se for assim, qual será a próxima do diretor? Já que, desta vez, são os mexicanos quem estão vendo Apocalypto de uma forma bastante negativa.
Se o retrato da ideologia maia não é bem-feito, não se pode negar que, graças à primorosa direção de arte, Apocalypto consegue desenhar um excelente panorama dessa civilização no sentido estético, que, dizimada por colonizadores europeus, ainda intriga estudiosos por conta do desenvolvimento de seus estudos e descobertas em todas as áreas científicas, da arquitetura à astrologia. A complexidade da sociedade maia, no entanto, acabou fazendo com que muitos de seus povos fossem caçados e capturados como animais. Pelo menos é a esta conclusão que o espectador pode chegar ao assistir a este longa-metragem.
Esses problemas esvaziam o contexto de Apocalypto. A violência é excessiva e extrema sem muito sentido, fazendo com que o filme seja ideal para os que têm estômago mais forte. Mesmo assim, pelo rigor estético e a excelência na direção - especialmente nas cenas de ação -, é produção bastante interessante, mas não serve para que o espectador aprenda mais sobre essa civilização. Melhor deixar este papel para os livros de história.

O longa A Rainha nos coloca dentro dos bastidores de uma das maiores tragédias britânicas - a morte da princesa Diana - que, além de ter sensibilizado o mundo inteiro, fez a imprensa questionar sobre o limite que se pode chegar para conseguir um furo de reportagem. Porém, esse ambiente é apenas o pano de fundo para o foco deste brilhante roteiro escrito por Peter Morgan, que está se destacando no mundo do cinema com grandes obras como O Último Rei da Escócia. A Rainha mostra que a figura mais forte e autoritária da Inglaterra também pode ter seus momentos de fraqueza e insegurança.
Com um toque de humor sarcástico, característico aos britânicos, o filme retrata o drama vivido pela família real britânica, representada pela figura imponente da rainha Elizabeth II (a vencedora do Globo de Ouro Helen Mirren), após a morte da princesa Diana. A família real está de férias no castelo Balmoral, na Escócia, e se recusa a retornar para o palácio de Buckingham, na Inglaterra. O povo está chocado com a tragédia e a indiferença demonstrada por sua rainha não transmite nenhum sentimento pela perda. A soberana terá de lutar contra velhas tradições reais e bloqueios pessoais para não perder o carinho de seu povo.
O primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen), recém-eleito na época da tragédia, é um personagem de grande destaque, não só no longa como também no período histórico representado, já que A Rainha é baseado em fatos reais. Ele terá a difícil missão de mudar a visão da rainha, que não aceita as divergentes e modernas opiniões de Blair, principalmente em relação às providências que devem ser tomadas para o funeral de Lady Di. Ambos irão aprender e mudar muito um com o outro.
Helen Mirren (O Sol da Meia-Noite) está espetacular como Elizabeth II, uma verdadeira rainha na arte da interpretação. Sendo digna de todos os prêmios que tem recebido pelo convincente trabalho que realizou, sua atuação em A Rainha é tão grandiosa que quase ofusca o talento também notável de Michael Sheen (Anjos da Noite).
O longo é repleto de grandes destaques, mas não se pode deixar de citar sua belíssima fotografia. Sob o comando da batuta experiente e segura do cineasta Stephen Frears (Alta Fidelidade), cada elemento é regido como uma orquestra. O figurino impecável, as cores vivas e fortes, os enquadramentos precisos aproximam o espectador, fazendo-o vivenciar cada sensação do trágico momento da família real britânica.
O filme mistura cenas de ficção a imagens de arquivo da época, mas isso é feito de uma forma imperceptível, mesclando-se ao enredo por meio de uma edição exemplar. O argumento poderia ter seguido por diversos caminhos comuns e ter se transformado em um documentário monótono e repetitivo. Por essa razão, A Rainha é, no mínimo, surpreendente, encantador e envolvente, pois foge de tudo que é esperado em um filme com um enredo histórico e inserções de imagens reais.
Em uma produção como A Rainha, a pesquisa e a veracidade dos fatos são imprescindíveis para que não haja censura por parte dos envolvidos ou, até mesmo, uma repulsa por parte do público. Para isso, o roteirista Morgan recebeu o apoio de uma equipe liderada por Robert Lacey, um jornalista respeitado pela família real e autor de diversos livros sobre o assunto.
A Rainha já possui em seu currículo inúmeros prêmios que tendem a crescer com a aproximação do Oscar, no qual está sendo indicado a Melhor Filme, Atriz, Diretor, Figurino, Roteiro Original e Trilha Sonora. É o reconhecimento de um projeto que consegue unir emoção, arte e profissionalismo a uma ambiciosa produção cinematográfica.

Baseado numa história real, À Procura da Felicidade é o tipo de filme perfeito para os que gostam de um drama bem triste, no qual o protagonista, geralmente carismático, sofre muito. Mas muito mesmo. O roteiro é inspirado na história real de Christopher Paul Gardner, que virou um milionário após passar maus bocados na cidade de São Francisco. Exatamente por isso, o final feliz é esperado. Mesmo assim, o filme é capaz de envolver o espectador, que se pega torcendo pelo protagonista mesmo sem querer.
Chris Gardner (Will Smith) é um homem sonhador que resolve investir todas as suas economias em modernas máquinas que fazem exames semelhantes às de raio X. Pela semelhança entre os dois equipamentos, ele não consegue recuperar o investimento. Nenhum médico quer comprar o aparelho que ele carrega entre um ônibus e outro. Por isso, tem dificuldades de sustentar sua mulher, Linda (Thandie Newton), e o filho pequeno, Christopher (Jaden Smith, filho de Will Smith também na vida real). Gradativamente, a família afunda em dívidas e conflitos. É quando Chris tem a idéia de tentar, a qualquer custo, trabalhar como corretor da bolsa - um emprego em plena ascensão no começo dos anos 80, quando se passa a trama. Mesmo sem estudos qualificados. Sua força de vontade, carisma e facilidade nos assuntos da matemática faz com que sua esperança de conseguir um emprego fixo e sustentar seu filho nunca seja abandonada.
Verdade seja dita: À Procura da Felicidade é um grande dramalhão e não tem medo de se assumir como tal. Também, pudera: além de ser baseado numa história triste, repleta de clichês envolvendo a superação de um homem em nome da família, é dirigido pelo italiano Gabriele Muccino (O Último Beijo). Culturalmente, italianos sabem trabalhar melhor um drama pesado do que os americanos. Talvez por isso, Muccino foi escalado pelo próprio Smith para a condução desta trama. Além disso, Will Smith mostra uma excelente atuação. Ironicamente, ele mesmo é um ator que se superou e mostrou também saber interpretar, além de ser comediante e rapper.
Mais do que a dificuldade financeira do protagonista, À Procura da Felicidade foca seu relacionamento com o filho pequeno e seu desejo de ser uma forte figura paterna para o menino. Mais do que respeito, Chris quer que a criança sinta orgulho dele, não importando as adversidades que a vida lhes impõe. Para ele, conseguir um emprego como corretor de ações está relacionado à procura da felicidade do título, ao lado de seu filho, do que à ascensão social e financeira. Afinal, este era o emprego dos sonhos de qualquer jovem yuppie norte-americano nos anos 80 e 90.
Além do carisma de Smith, também é importante reforçar a importância da escalação de seu filho para interpretar este personagem. A química entre pai e filho é levada à tela naturalmente, ponto essencial para a construção da dinâmica entre os dois personagens, que alterna momentos tensos e leves, típicos nesse tipo de relação. Apesar da conclusão do roteiro ser óbvia, a trama é envolvente o suficiente para fazer com que o espectador se emocione.

"A primeira vítima de toda e qualquer guerra é sempre a verdade". A frase - atribuída ao senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917 - não só é das mais acertadas como também das mais proféticas. Daquela época até hoje, os governos desenvolveram mecanismos cada vez mais sofisticados para encobrir e deturpar a verdade, principalmente em tempos de guerra. "O Iraque tem armas de destruição em massa" é um dos mais recentes e explícitos ataques à verdade.
O novo filme de Clint Eastwood, A Conquista da Honra, esmiúça com o talento e a precisão cinematográfica típicos do diretor uma das mais marcantes mentiras bélicas cometidas durante a Segunda Guerra Mundial: a célebre fotografia dos soldados americanos hasteando a bandeira pátria no alto do Monte Suribachi, durante a sangrenta batalha de Iwo Jima. Trata-se de uma das imagens mais marcantes do conflito, na qual cinco fuzileiros e um membro do corpo médico da marinha norte-americana erguem a bandeira que ao mesmo tempo simboliza a tomada da ilha e dá um novo moral a toda a nação. Publicada em vários jornais, a foto se transforma em sucesso instantâneo e é imediatamente capitalizada pelos marqueteiros da época (sim, eles já existiam), que vêm na bela imagem uma oportunidade única de alardear a sucesso das tropas norte-americanas. Porém, ao tentar transformar a fotografia em instrumento publicitário, vêm à tona todas as histórias podres que envolveram o fato, mentiras, injustiças e crueldades que devem ser radicalmente escondidas da população.
O roteiro é baseado no livro Flags of Our Fathers, publicado em 2000 e escrito por James Bradley e Ron Powers. James é filho de John "Doc" Bradley (vivido no filme por Ryan Phillippe), enfermeiro da Marinha e um dos principais envolvidos no caso da bandeira. O próprio James só ficou sabendo do ocorrido muitos anos após o término da guerra, já que o próprio pai se recusava a tocar no assunto. Assim, a produção opta por não contar a história de forma cronológica e sim em vários níveis de tempo, alternando flash-backs e exigindo do público uma boa dose de concentração.
Ao final de 130 minutos de projeção, as idas e vindas podem até ter fatigado os olhares da audiência, mas o resultado é extremamente gratificante: A Conquista da Honra é um estudo sobre a manipulação política do homem comum, a falta de escrúpulos que norteia os donos do poder, e sobre a maneira pela qual a mídia se sobrepõe a todo e qualquer tipo de verdade. Tematicamente, lembra bastante Os Eleitos (1983), de Phillip Kaufman.
Esteticamente, o filme também é dos mais competentes, com uma ótima fotografia dramática de Tom Stern (o mesmo fotógrafo dos filmes mais recentes de Eastwood) utilizando belos e contrastantes tons de azul, cinza e preto.
Um dos pontos mais interessantes de todo o projeto reside no fato de Eastwood ter se dedicado de corpo e alma à pesquisa histórica, não apenas lendo muito sobre a batalha, como também conversando com veteranos dos dois lados. Tamanha pesquisa resultou num segundo filme que o próprio Eastwood produziu e dirigiu concomitantemente a A Conquista da Honra: Cartas de Iwo Jima, falado em japonês, que conta o outro lado da história.
Com locações na Islândia, A Conquista da Honra tem custos estimados de US$ 55 milhões e é a produção é assinada a quatro mãos pelo próprio Eastwood ao lado de ninguém menos que Steven Spielberg. Na verdade, quando Eastwood desejou comprar os direitos do livro, foi informado que os mesmos já pertenciam a Spielberg, que, por sua vez, não havia até então aprovado nenhum roteiro que lhe fosse satisfatório. Ambos resolveram se associar no projeto. O nome de Spielberg nos créditos iniciais gera inevitáveis comparações com O Resgate do Soldado Ryan, mas, fora o fato de ambos tratarem de temas relacionados à Segunda Guerra Mundial, cinematograficamente não há muitos pontos em comum. A Conquista da Honra é bem superior ao filme dirigido por Spielberg. Tem mais política, um roteiro bem mais completo, mais elaboração na construção dos personagens, traz um subtexto mais rico e uma direção mais sutil. Talvez por isso não tenha sido um grande sucesso nas bilheterias dos EUA.

Os bem-sucedidos produtores Robert Zemeckis e Steven Spielberg, que de bobos não têm absolutamente nada, também estão de olho no lucrativo mercado de desenhos animados de longa-metragem. Eles levantaram um investimento de US$ 75 milhões e produziram A Casa Monstro, um filme de suspense protagonizado por crianças, teoricamente direcionado ao público infanto-juvenil, mas que também pode assustar muitos marmanjos.
A história mostra três crianças descobrindo um segredo que nenhum adulto acreditaria: a estranha casa de um vizinho rabugento não apenas é mal-assombrada, como também é um monstro com vida própria. Até aí, tudo bem para começar uma trama infantil. O problema é que o filme vai assumindo contornos cada vez mais densos, assustadores até, e culmina com uma triste história de amor e morte que talvez desagrade às crianças. Principalmente as mais jovens. Por vezes, tenta ser lúgubre e um pouco gótico, no melhor estilo "quero ser Tim Burton", mas não abre mão da aventura, marca registrada de Spielberg, e acaba emperrando num perigoso e indefinido meio termo. Talvez por isso não tenha recuperado seu investimento nas bilheterias dos EUA, onde rendeu menos que US$ 70 milhões.
Depois do O Expresso Polar, dirigido por Zemeckis, A Casa Monstro é o segundo longa produzido em "Real D", um sistema de captura de movimentos através de atores, e posterior reprodução em animação digital.

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Entre as atrizes, somente a espanhola Penélope Cruz (Volver) é indicada pela Academia pela primeira vez. Já Meryl Streep é indicada ao Oscar pela 14ª vez (ela ganhou duas, em 1980 por Kramer Vs. Kramer e A Escolha de Sofia, em 1983) pela atuação em O Diabo Veste Prada, mantendo-a na posição da atriz que recebeu o maior número de indicações na história do prêmio. Não tão experiente em se tratando de Oscar, mas com certa bagagem neste tema, é a inglesa Kate Winslet. Aos 31 anos, ela comparece à festa pela quinta vez como indicada (desta vez principal, por Pecados Íntimos). Nos quatro anos anteriores em que concorreu, voltou de mãos abanando. A atriz inglesa Hellen Mirren, apesar de ser consagradíssima, recebe somente sua terceira indicação ao prêmio da Academia por A Rainha, enquanto que Judi Dench (Notas Sobre um Escândalo) recebe sua sexta nomeação (venceu em 1999, por Shakespeare Apaixonado). Curiosidade: dentre as indicadas a Melhor Atriz, somente Meryl Streep é norte-americana.
Se a experiência é ponto em comum entre a maioria das concorrentes à estatueta de Melhor Atriz, os candidatos aos outros Oscars de interpretação são relativamente novos nos prêmios da Academia, exceto por Peter O’Toole que, após receber o Oscar Honorário em 2003 - geralmente dado aos artistas que não costumam ser muito reconhecidos pela Academia e estão chegando ao fim de suas carreiras -, é indicado a Melhor Ator pelo drama inglês Venus. Esta é sua oitava oportunidade na tentativa de conseguir levar uma estatueta para casa além do prêmio honorário.
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Animação
A Casa Monstro
Carros
Happy Feet - O Pingüim
Ator
Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue)
Peter O'Toole (Venus)
Ryan Gosling (Half Nelson)
Will Smith (À Procura da Felicidade)
Ator Coadjuvante
Alan Arkin (Pequena Miss Sunshine)
Djimon Hounsou (Diamante de Sangue)
Eddie Murphy (Dreamgirls - Em Busca de um Sonho)
Jackie Earle Haley (Pecados Íntimos)
Mark Wahlberg (Os Infiltrados)
Atriz
Helen Mirren (A Rainha)
Judi Dench (Notas Sobre um Escândalo)
Kate Winslet (Pecados Íntimos)
Meryl Streep (O Diabo Veste Prada)
Penélope Cruz (Volver)
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Pequena Miss Sunshine |
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Bruce Willis |
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Speed Racer |
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Sylvester Stalone como Rambo |
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Woody e Buzz Lightyear |
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Drew Barrymore |
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Tobey Maguire como Homem-Aranha |




Antes de mais nada, é importante falar um pouco sobre o projeto ao qual pertence Cartas de Iwo Jima. Idealizado por Clint Eastwood, que também assina a direção, tratam-se de dois filmes - este e A Conquista da Honra - que mostram lados opostos de um mesmo conflito. Em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Iwo Jima, no Japão, foi de extremo significado estratégico para ambos os países. O local era ponto de partida para a campanha norte-americana em território japonês. Portanto, último forte do território japonês antes da ilha principal ser invadida. Os dois filmes formam um panorama abrangente e extremamente humano desta passagem na história mundial, mostrando a visão de soldados de ambos os lados. Complementares, formam um painel completo, que passa longe do maniqueísmo comum na maioria dos filmes que relatam conflitos bélicos.
O roteiro é baseado no livro Pictures Letters From Commander In Chief, com cartas do general Tadamichi Kuribayashi, compiladas na publicação por Tsuyoko Yoshida. Juntas, revelam características pessoais de alguns dos envolvidos no conflito em Iwo Jima, especialmente o general, interpretado por Ken Watanabe (O Último Samurai). A história do filme, portanto, é contada principalmente pelo ponto de vista do militar, destacado para comandar os soldados que defenderiam a ilha japonesa da invasão norte-americana. Ele revela em sua correspondência suas ansiedades e um pouco dos acontecimentos durante o mês que esteve no local defendendo sua pátria.
A ilha de Iwo Jima, cujo terreno infértil fez com que ela fosse quase que desabitada por japoneses, foi bastante importante estrategicamente para definir os rumos do conflito. A história de Cartas de Iwo Jima começa alguns dias antes da chegada dos soldados norte-americanos na fétida terra. Lá, recebem a função de explorar as cavernas do local, trabalhando o terreno para a recepção do inimigo. Dentre os soldados japoneses, é destacada pelo roteiro a figura de Saigo (Kazunari Ninomiya), um jovem padeiro recrutado para a guerra que está prestes a ter o primeiro filho. Em suas cartas, revela seu maior desejo: sobreviver para voltar à família. O mesmo de tantos outros cidadãos que participam da campanha na ilha.
Os personagens de Cartas de Iwo Jima são compostos de forma extremamente humana. É exatamente este o lado do conflito que Clint Eastwood pretende mostrar: mais do que homens de capacete que carregam uma arma e têm como objetivo eliminar inimigos, são pessoas com desejos, traumas, enfim, uma história. Por isso, esta produção foge do convencional em se tratando de filmes de guerra. Além de ter belas imagens relacionadas ao embate entre os dois lados do conflito, é capaz de envolver o espectador por conta da força da história conduzida pelos personagens. Principalmente em se tratando do general e o soldado, dois lados tão extremos dentro da hierarquia da guerra e tão unidos por conceitos universais, como o medo, a honra e o amor pela família.
Afinal, independente da hierarquia, todos são os mesmos numa guerra. Se Saigo não sabe muito bem por que está ali no começo do filme, defendendo aquela terra fedida e infértil, ele aprende que tipo de interesses está em jogo. Mais do que uma ilha, Iwo Jima e sua defesa estão relacionadas ao futuro do império japonês. Culturalmente, a figura do imperador entre os cidadãos do Japão é idolatrada quase que cegamente, numa relação que beira a religiosa, o que Saigo aprende na medida em que o filme é concluído. O personagem de Kuribayashi apresenta uma evolução contrária à do padeiro: na medida em que a guerra caminha, ele é capaz de aceitar a vitória mais num âmbito pessoal do que como seu dever enquanto general do exército imperial.
A honra e a família começam a ganhar um papel maior em suas motivações, ao mesmo tempo em que o fato dele conhecer a cultura norte-americana por ter vivido nos EUA é essencial para guiar seus atos. Por isso, na medida em que o filme evolui, outra importante questão é fragilizada no duelo entre nações: a nacionalidade em si, já que os personagens humanizam-se durante o mês de conflito na ilha, questão vidente não somente em Cartas de Iwo Jima, mas também em A Conquista da Honra.
Por isso, as duas produções são complementares e essenciais para que haja o entendimento completo do tipo de narrativa que Eastwood desenvolve. O diretor demonstra ter a sensibilidade ideal para mostrar esses valores na tela. A fotografia apagada, que só ganha vida, ironicamente, no vermelho do sangue derramado e da bandeira japonesa, reforça a visão em relação ao conflito: são mínimos os momentos de vida numa guerra. Mas eles existem e é esse o foco principal do filme.

Vários rumores cercam a continuação de Batman Begins, The Dark Knight, de Christopher Nolan.
Apesar de ainda estar indefinido o nome de quem substituirá Katie Holmes no papel de Rachel Dawes, o vilão Duas-Caras já foi escolhido: trata-se de Aaron Eckhard (Dália Negra).
Eckhard fará o papel de um promotor público que se torna aliado de Batman (Christian Bale) em sua busca pelo Coringa (Heath Ledger). Após um acidente, ele se torna o vilão de dupla personalidade.
As filmagens devem começar no mês que vem. A estréia está prevista para 18 de julho de 2008.
>>> Aaron Eckhard
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Harrison Ford e Sean Connery em Indiana Jones e a Última Cruzada